O paradoxo da compaixão

Fonte: Revista Veja – 03/08/2011 Autor(es): Duda Teixeira

Ricos são exigentes na hora de fazer doações. Querem saber exatamente para onde irá o dinheiro, como será usado e recusam-se a ajudar uma instituição desconhecida. Quando finalmente decidem socorrer os outros, tornam-se indispensáveis. Os cidadãos da classe A – aqueles com renda familiar mensal superior a 6 745 reais – representam apenas 7% dos doadores no Brasil, mas são responsáveis por mais de dois terços do total de contribuições individuais, feitas por pessoas físicas. Desde 2003, contudo, a generosidade dos mais ricos, assim como a da maioria dos grupos sociais brasileiros, diminuiu. De acordo com um levantamento feito pela consultoria em estatística RGarber, que durante dois meses cruzou os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares e dos censos demográficos do IBGE a pedido da ONG Fundo Cristão para Crianças, a redução no total de doações da classe A foi de 37%. O único segmento social que ampliou sua participação em obras de caridade foi a classe C – em que se enquadram os cidadãos com renda familiar mensal entre 1 200 e 5 174 reais. Esse aumento mal serviu para compensar a redução das doações no restante da sociedade. Um estudo da consultoria McKinsey estima em 1 bilhão de reais o total de contribuições individuais por ano no Brasil.
Entre 2003 e 2010, a classe C ganhou 1 milhão de novos doadores, os quais também elevaram sua contribuição média de 15,50 para 17 reais por mês. Isso era esperado, pois nesse mesmo período um grande número de brasileiros ascendeu à classe C, que também se tornou mais rica. Já a queda na caridade dos ricos é surpreendente. Normalmente, a disposição de ajudar o próximo diminui durante crises econômicas que reduzem o poder de compra dos cidadãos. Não é o caso do Brasil. Descarrada a hipótese econômica, a explicação para o decréscimo na benevolência recai sobre fatores comportamentais.
As diferentes classes sociais têm posturas contrastantes em relação aos necessitados. Os mais pobres frequentemente doam por impulso. Como muitos já passaram por situações de penúria ou conhecem parentes e amigos em dificuldade, sentem-se compelidos a ajudar. “Os pobres doam sem pensar se o dinheiro fará falta para eles mais tarde”, diz o psicólogo americano Paul Piff, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Piff e seu grupo de pesquisa fazem simulações em laboratório para entender a lógica da caridade humana. Uma de suas conclusões é que, em geral, os pobres aceitam entregar uma fatia maior de sua renda aos necessitados do que os ricos. Aparentemente, essa é uma característica que os brasileiros compartilham com os americanos. Segundo os lados levantados pela RGarber no Brasil, os membros da classe E doam em média 5,4% de sua renda, enquanto os da classe A doam 0,4%. Esse fato orienta as estratégias de arrecadação das entidades filantrópicas. A maior parte das doações de roupas e móveis para o Exército de Salvação em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, ocorre em bairros de classe média e baixa. A instituição também envia boletos bancários pelo correio, mas, da última vez que fez isso, excluiu a classe A, prevendo que o retorno seria baixo. Centrais de telemarketing especializadas em convencer as pessoas a doar por telefone também preferem concentrar seus esforços no público de baixa renda.
Os mais abastados, por não terem um contato direto com a pobreza e por desconfiarem da idoneidade das organizações de caridade, costumam ser mais racionais no momento de estender a mão aos que precisam. “Para convencer um rico a doar não basta contar uma história triste. É preciso mostrar estatísticas e ter bons argumentos”, diz Piff. Uma das organizações que seguem esse princípio é a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de São Paulo. A maior parte das doações que ela recebe vem das classes C, D e E. Para alcançar o topo da pirâmide social, a organização promove eventos, como leilões de vinhos. “Os potenciais doadores chegam por indicação de conhecidos e fazem muitas perguntas. Só quando se sentem seguros de que seu dinheiro será bem empregado decidem ajudar”, diz Cristiane Lopes, coordenadora de desenvolvimento institucional da Apae. Dada a natureza cuidadosa dos filantropos de alta renda, é possível que a percepção crescente de que a corrupção percorre de alto a baixo a sociedade brasileira tenha reduzido sua disposição de abrir a carteira.

Baixe aqui o PDF da reportagem: revistaveja 03/08/2011

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